Tanto tempo depois eu vou contar uma coisa pra minha mãe: “eu fui assaltado”. Nem sempre dá pra contar tudo pros pais né. Não por maldade, já que me alegro de ter uma relação muito aberta com os meus. Mas por preocupação. O que minha querida mamãe ia ficar pensando se soubesse que seu filhinho querido, que resolveu fazer sei lá o que lá na Colômbia, foi colocado de joelhos no meio do nada com uma arma apontada pra cabeça?
Escrevendo assim parece pesado né? Até que foi, mas tudo nessa vida acontece da forma que tem que acontecer. E agora, prestes a partir para o Equador, lembro desse caso para enfim contar a nossa passagem pelo primeiro povoado que fixamos residência em nossa jornada: Taganga.
Uma vilinha de pescadores, Taganga é na prática um bairro de Santa Marta, a capital do departamento de Magdalena. O Distrito Turístico, Cultural e Histórico de Santa Marta é uma cidade que tem um pouco de agricultura e um pequeno porto, mas como seu nome já diz, tem no turismo sua principal força. Seu centro histórico se junta à beleza natural do caribe (a praia do centro em sí, na qual fica o porto, não é das mais bonitas) se tornando um importante destino de turistico.
Famílias da classe média colombiana e estrangeiros que buscam hotéis e restaurantes mais sofisticados, escolhem normalmente a praia de Rodadeiro, com sua água azul clara, seus milhares de guarda-sóis e um cinturão de prédios altos que cobre todo o arredor. Mochileiros, hippies, artesãos, e quem se sente mais confortável com um estilo mais simples, vai para Taganga.
Povoado pescador descendente dos Koguis, indígenas que ainda hoje habitam a Serra Nevada de Santa Marta, foi um dos primeiros a ser fundado pelos invasores espanhóis no século XVI (junto com a própria Santa Marta). Somente na década de 60 ganhou o acesso por terra com uma estrada até o centro. Carros, taxis à 8 mil pesos e pequenos ônibus – ou busetas – a quase dois mil pesos fazem o trajeto em 15 minutos.
Na década de 70, porém, que Taganga entrou de vez no mapa. Era a época da chamada bonanza marimbeira. As terras da Serra Nevada de Santa Marta, usada por tanto tempo para o cultivo de coca para uso ritualístico dos indígenas, começaram a dar espaço (a força) às plantações de maconha. As águas calmas da bela baía de Taganga usadas para o escoamento da produção (em uma viagem pescadores ganhavam o equivalente a uma vida de trabalho). A fartura atraiu muita gente para a cidade, até 1985, quando os maiores compradores, EUA, começaram a diversificar seus fornecedores (entre outros motivos). A bonança chegou ao fim.
Coincidência ou não, foi nessa é época que começaram a surgir os primeiros hostels e hotéis. Além de ser opção mais orgânica na histórica Santa Marta, Taganga passou a ser ponto de parada para centenas de turistas estrangeiros, principalmente europeus, israelenses e americanos, que querem conhecer o paradisíaco vizinho Parque Tayrona ou a Serra Nevada de Santa Marta e seus povos indígenas.
Para completar a confusão que é o povoado de cerca de três mil pessoas, Taganga é parte indispensável do roteiro de quem viaja pela América Latina, sejam eles vendedores de artesanato, músicos, malabaristas, e mochileiros. Para esses, além de conhecer lugares incríveis, um outro fator colocava aquela vilinha de pescadores na rota: a festa.
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O nosso primeiro amigo por lá se chamava, assim como eu, Felipe. Taganga tem três ruas asfaltadas. Uma que liga a entrada da cidade até a praia, outra na orla e outra até a igreja. Quiosques e um calçadão ainda separam a areia da praia do restante da cidade. A rua, já que em uma parte o transito de carros é proibido, fica ocupada por vendedores de artesanato, sucos, comida e turistas para comprar tudo isso. Do outro lado, lojinhas de presentes e tranqueiras, restaurantes e mercadinhos fechavam o cenário beira-mar. Em um desses mercadinhos, com a cerveja barata, um vendedor de artesanato semi-calvo, com dreads no restante do cabelo e olhos gigantes se posicionou estrategicamente, utilizando sua desenvoltura e bom portunhol para conseguir pelo menos uma cerveja de quem não queria comprar seus brincos e pulseiras. Era o campineiro Felipe.
Nesse mesmo mercadinho, tomando cerveja com esse Felipe e o também brasileiro Albertino que em um belo dia, um gatinho com pouco mais de um palmo de tamanho cruzou nosso caminho. Ele se escondia detrás da geladeira, bebia água que escorria dela, miava muito e se assustava com cada barulhinho. O Felipe hippie ganhou sua confiança primeiro. Fez carinho e ele ficou por nossa volta. Albertino escolheu o nome: o do conquistador e maior herói nacional, Simón Bolivar. Quando depois de um xixi, Bolivar fez questão de enterrar tudo, mostrando seus bons modos, acabou conquistando nossos corações. A ideia era levar para casa, cuidar até que crescesse um pouquinho, e quando enfim deixássemos Taganga, deixá-lo a sua própria sorte. Mas o tempo passou, de Bolivar virou Bólis, aí Bóris. Aí já era tarde né, ganhamos um filho que nos acompanha em nossa jornada por parte da América do Sul.
Depois vieram a brasileira Fernanda, o Yason, o Beto, a mina que vende hambúrguer vegetariano, os colombianos, peruanos, canadenses, argentinos e outros tantos que nem lembramos os nomes, mas que dentro do possível ocuparam a gigantesca lacuna que todos nossos amigos e família fazem daqui de longe.
Bastava descer umas ruas para chegar à beira da praia e encontrar dezenas de pessoas, conhecidas da noite anterior ou recém-chegados, para conversar, dividir uma cerveja e entrar na festa. Caso a vontade fosse ficar mais tranquilos, era só ficar na nossa confortável em casa ou evitar os pontos de concentração de pessoas.
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Foi fácil encontrar uma casa em Taganga. No primeiro dia de procura, pergunta aqui, pergunta ali, um policial nos levou até o camping do Mr. Wilson, que também trabalha como imobiliária turística por ali. Entre as ofertas estava uma casinha rosa e verde, do lado do rio que só enche quando chove e atrás do campo de futebol. Dentro dela, televisão de sei lá quantas polegadas, ar condicionado, geladeira, internet sem fio, computador e mais conforto do que precisávamos.
Vira e mexe os filhos do dono da casa, Jany, estavam no quintal usando a internet, que nem na própria casa tinham. A casa para alugar era melhor que a própria casa de Jany, que também era dono de um mercadinho. Nosso aluguel, bem menor que o de São Paulo justificava o investimento em um conforto para turistas que ele mesmo não podia ter.
Mas não era exclusividade de Jany. Tirando a Taganga turística, as casas eram em sua maioria bem simples, sem grandes televisões e computadores. O pessoal não tinha dinheiro não. O lado direito da praia era dominado por barcos dos pescadores, impossibilitando o banho, afastando o turismo. No lado direito da praia ficavam os setores mais pobres de Taganga. Lado que turistas deveriam evitar, principalmente Hollywood, já subindo pelos morros que cercam Taganga. Pouco espaço pra tanta desigualdade.
“Sorte” dos turistas, que como nós, aproveitavam os preços baratos nas lojas, nos restaurantes, na fartura de peixes, e até para mergulhar. Era comum dividir a garrafa de cerveja com viajantes que nem tinham onde dormir, turistas endinheirados, e quem só esperava que a garrafa terminasse para recolhe-la e, assim, fazer alguns trocados. Perambulando por lá vendedores de cocaína e maconha, igualmente baratas e de boa qualidade (ouvi dizer), trabalhavam intensamente.
Como primeiro destino de nossa viagem, não podia ter escolha mais perfeita. Nas manhãs que acordávamos com mais disposição, uma caminhada nos levava à bela Praia Grande. Que nem é tão grande assim, mas não tem ruas, calçadão nem dezenas de barcos, somente alguns restaurantes. A água era azul clara, transparente, e a areia branca. Com a minha recém adquirida máscara de mergulho era capaz de passar horas dentro da água vendo a infinidade de peixinhos coloridos que por ali viviam.
Em uma segunda-feira de sol, Taganga estava vazia. A água que toda noite chegava ao povo, fazia dias que não vinha. Os moradores, pedindo providências do poder público, fecharam a estrada que dá acesso à Taganga. Ninguém chegava ou saía da cidade que não fosse de lancha pelo mar ou à pé. Os turistas não chegaram.
Era uma segunda-feira, por volta do meio-dia. Sem vontade nenhuma de trabalhar, coloquei minhas coisas em uma mochila e fui para a Praia Grande. O caminho vai pela encosta da montanha que a separa de Taganga. Estava sozinho e tranquilo na trilha, até que uma curva escondia um adolescente branco, mei gordo e com uma 38 na mão. Olhei para trás e um mais jovem ainda, magrinho, com uma faca na mão. Me mandaram caminhar em silêncio por outra trilha, por entre as montanhas. “Onde vocês tão me levando?”.
Me mandaram ajoelhar com a cabeça quase colada no chão também. A ordem era não olhar para cima. “O que vocês querem comigo?”. Apareceram mais uns três sujeitos, que viraram e reviraram minha mochila. Tchau máscara de mergulho. Tchau celular supercaro que dá pirueta e brilha no escuro comprado na semana anterior. Tchau 20 mil pesos. “Por que diabos eu levei o celular pra praia também heim?”. “Ainda bem que não estava com a minha câmera”.
Pra botar pânico em todo mundo, ainda ficaram ameaçando me amarrar. “Não. Não precisa amarrar ninguém não”. “Deixa meu celular. Preciso dele pra trabalhar. É importante”, tentei desenrolar em espanhol. Deixaram o chip. “Po.. mancada me roubar. Sou brasileiro. Não sou europeu cheio da grana. Brasileiro não tem dinheiro”. Não é daqui, é tudo a mesma coisa. Cala a boca.
Uns minutos depois de todos sumirem, levantei e voltei sofrendo pelo calor das pedras queimando meus pés descalços (ah.. levaram minhas Havaianas também). Já em Taganga, um grupo ouvia atentamente a história de um casal que acabava de ser assaltado quando ia para a Praia Grande. Na polícia, fizeram questão de anotar tudo em um caderninho. Só dá para fazer alguma coisa quando é flagrante.
Depois disso, não sei se por assunto em comum, ou se pela crescente onda de assaltos, todos tinham uma história de violência para contar. Roubaram um, entraram na casa de outro. Ficávamos esperando o dia que íamos chegar em casa e tchau TV de não sei quantas polegadas, tchau ar-condicionado, tchau nossas roupas, tchau nossos computadores.
Em um povo pequeno, todos sabem de tudo. Todo mundo sabia quem assaltava, quem vendia droga, quem traia a mulher, quem bebia demais. Um amigo tagangueiro até me procurou para ver se eu reconhecia um gordinho como o assaltante. Não quis nem ver quem era. Se a polícia não faz nada, o que diabos eu ia fazer? Só ia arrumar pra cabeça.
O paraíso que vivíamos foi perdendo a graça.
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Ainda ficamos boas e divertidas semanas por lá. Quatro dias no Parque Tayrona. Quatro dias na Ciudad Perdida. Sempre com a casa intacta no retorno. Fingindo que era para ganhar dinheiro, mas por diversão, ainda nos juntamos a alguns novos amigos para vender almoço e doces para os turistas e trabalhadores de Taganga (é bom treinar para o inevitável dia que o jornalismo vai deixar de ser opção). Prejuízo não deu.
Ainda não tenho celular. Não faz falta, embora fosse dahora publicar umas fota no Instagram. Por falta da máscara, fiz um curso de mergulho e vi os peixes que vivem 18 metros mais profundos dos que costumava ver (mas ainda vou comprar outra). Nada do que levaram fez falta. Fez falta a tranquilidade de poder ir para a Praia Grande, voltar para casa de madrugada, viajar e saber que a casa vai estar como deixou. Dois meses depois da chagada, já era tempo de mudar de ares. Medellín nos esperava.