Tínhamos ouvido vagamente falar da cidade de Palomino, um
pequeno povoado que tinha as belezas naturais de Taganga, mas sem calçadão,
quiosques e bagunça. Isso à beira de um mar com ondas (até então raridade no
caribe que conhecemos). Sedentos por novos lugares, planejamos para a manhã de
sexta-feira.
Saindo de Taganga,
pega-se uma buseta (faça uma piada), que são pequenos ônibus que a 1.200 pesos
colombianos fazem o papel de transporte público na cidade, até o Mercado, e de
lá mais um ônibus, sendo esse um pouquinho maior, que vai até Palomino. É o
mesmo que vai para o parque Tayrona, alvo da maioria dos não-colombianos que
você vai encontrar no caminho. Basta desembolsar 8 mil pesos e seguir por cerca
de 2h30 para chegar lá (de carro deve ser bem mais rápido. Os ônibus param a
todo tempo para recolher e deixar passageiros, já que não existem pontos de
ônibus por aqui).
A chegada foi estranha. 3 mil pesos colombianos para um
moto-taxi (dois, no caso) que nos levou a um camping, à beira mar. 10 mil pesos
por pessoa por noite para armar sua própria barraca na praia, um chuveiro que
mal sai água e vaso sanitário. Bem que tinham nos avisado que dava para ficar
na praia sem pagar nada. O rio Palomino, que tão bem íamos conhecer no dia
seguinte, resolveria o problema. Mas já era tarde.
É raro eu gostar de um lugar assim que chego. Essa correria
de como chegar e onde ficar sempre me faz esquecer de como aproveitar. Mas
estando ali, não demorei muito para respirar e olhar em volta. Fim de tarde
nublado do caribe não é um fim de tarde de São Paulo. O sol se esconde
gentilmente por detrás das nuvens, deixando escapar cores e formas que te faz
gostar daquelas nuvens estarem lá. Isso com uma brisa que disfarça o calor constante.
Praia de tombo, mar agitado, só atraia surfistas e olhares.
Turistas com família, grupos de amigos e um vendedor de artesanato davam
movimento à parte com mais pousadas e campings dos 6 km da praia de Palomino (na mair parte deserta).
Encontramos um amigo hippie brasileiro conhecido de Taganga, que era amigo do vendedor.
Ele deixou os artesanatos com a chegada da noite, mas não o violão com o qual atraia os turistas. Entre “Y tu cabeza está llena de ratas “ e outras
canções que aprendeu durante suas viagens pela América do sul, veio a chuva e o
sono. O melhor da viagem vem durante o dia.
Na busca por comida em uma das tiendas (como chamam os
mercadinhos), fomos procurar também o que fazer. Um promotor de turismo nos
falou, entre outras possíveis atrações, sobre uma caminhada para dentro da Sierra
Nevada, que te leva a uma tribo indígena, além da opção de descer de raffiting por
todo o rio até chegar ao ponto que deságua no mar. Tudo por 170 mil pesos
colombianos. x2= 340.000 $COP (quase R$ 400).
Não né.
Conversa aqui, conversa ali. Encontramos dois guias locais
que faziam o mesmo passeio, mas por 60.000 $COP os dois (uns R$ 70). Aí sim né.
Mas o “porém” é que no lugar do raffiting, seria um pneu de caminhão no rio (o
outro lugar também dava essa opção). E aí fomos nós, às 7h da manhã de sábado
partimos montanha acima.
A caminhada era longa, e Ernesto Cortéz, nosso guia, nos
contou um pouco sobre onde estávamos. A Sierra Nevada de Santa Marta é uma
cadeia montanhosa que fica perto do fim dos Andes, mas é independente dela.
Fica a apenas 42 quilômetros do mar do mar do caribe, com alturas que chegam a
até 5.775 m, em dois picos com praticamente a mesma altura ,chamados Cristóbal
Colón e Simón Bolívar. Estende-se por
17.000 km², passando por três departamentos colombianos, mas nós só entramos
uns 6 km Sierra adentro. Foi o suficiente para chegar até alguns moradores da
região.
Além de algumas cidades agrícolas que cresceram ao longo do
tempo dentro da área das montanhas de Sierra Nevada, quatro povos estão lá
desde antes da chegada dos espanhóis por ali. Os arhuacos, wiwas e kogui são
tribos indígenas que preservam até hoje boa parte de suas tradições, apesar de
seus líderes terem influencia no governo do país. Os kankuamos formam a
população mais influenciada pelo homem branco, perdendo boa parte das
tradições. Os kogui foram os que conhecemos.
Ou melhor. Conhecer seria uma força de expressão sem
tamanho. Se trata de um povo extremamente fechado e tímido, talvez fator fundamental
para sua preservação. Arredios ao contato com o homem branco. O outro
passeio, mais caro, contava com um guia indígena que ia explicar tudo o que
queríamos saber sobre a cultura deles, desde que fosse feito um pagamento de 35
mil pesos colombianos (já incluso nos 170 mil cobrados pela agência de
turismo).
Fomos sem guia indígena. Ernesto e sua mãe Marta eram
bogotanos que viviam ali há apenas 4 anos, pouco tempo para virar amigo dos
índios. Em troca de alguns pães e um pouco de arroz pudemos usar a tribo como
passagem para o destino final da subida, o Rio Palomino. A tribo estava vazia, com poucas mulheres e
crianças que não foram trabalhar, e que me deixou tirar algumas fotos e observar um pouco da arquitetura dos koguis.
Tinha chovido na noite anterior. O rio estava cheio e
agitado. Os guias estavam preocupados, e nos passavam intranquilidade. A
descida era perigosa. Não tanto para mim, Carol e Marta, que estávamos sobre os
pneus. Perigosa para Ernesto, que ficou na água, descendo o rio todo a nado, conduzindo
nosso caminho para longe de pedras e galhos por uma corda. Garantiu a segurança
dos turistas e da mamãe.
Alguns sustos, momentos de tensão, adrenalina, trechos de
calmaria, muito sol e cerca de 2h30 depois, chegamos inteiros à boca do rio que
deságua no mar. Com direito a mais uma caminhada em praia deserta para chegar
de volta ao camping.
Ainda encontramos um rapaz, amigo de Marta, que
nos apresentou o poporo (acho que é assim que se escreve). Um recipiente que
guarda calcário puro, retirado de forma natural de conchas do mar. Com um
pedaço de pau ele pega o calcário e passa diretamente em um bolinho de folhas
de coca que colocou em sua boca (tem que passar na folha, por que na boca
queima). Essa prática faz parte da cultura indígena, que a usam constantemente. A cal e a folha de coca juntas com a saliva geram uma reação
química na boca, que faz com que a folha de coca libere seus alcaloides
lentamente. É o mesmo princípio da cocaína, mas por meio de um processo natural
e proveniente de uma cultura milenar. Utilizam para afastar a sede, fome e cansaço durante o trabalho ou em travessias pelas montanhas.
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