Um quarto com banheiro. Essa é a nossa casa aqui em Montañita, no Equador. Ou melhor, tudo depende de que você considera uma casa. Ainda temos uma cozinha grande, uma mesa grande para comer, dois espaços com redes e cadeiras (sendo que um desses nunca coloquei meus pés) e sala de televisão com tv a cabo. Tudo compartilhado com outros brasileiros, equatorianos, chilenos e muitos, muitos argentinos, no hostal chamado Tu Ventura. Na privacidade do lar, somente aquilo: quarto e banheiro.
O fato é que com o passar do tempo, fomos nos adaptando a vida de mudanças e casa já se tornou um conceito relativo. Foram cinco até agora, contando com essa.
Em Taganga foi rápido encontrar. No segundo dia já tínhamos sala com tv, cozinha americana, banheiro, quarto com ar-condicionado e um pequeno quintalzinho. Lá foi a primeira casa na vida do Bóris, que contava sempre com a porta dos fundos ligeiramente aberta (tinha uma grade que garantia a segurança), para que pudesse usar seu direito de ir e vir. Ficava a uns 3 minutos andando da praia, mas em um canto tranquilíssimo. No sopé de um dos morros que circundava o povoado de pescadores.
Em Medellin, cidade grande, nosso dinheiro só alcançou um quarto-sala em espremidos e mal iluminados 3m² (é exagero, tá, num cheguei a medir, maas era beem pequeno). Ficava em um apartamento em um bairro muito gostoso. Só não tinha porta dos fundos, nem quintal, nem como o Bóris sair. Era uma caixa de areia ocupando espaço sob a pia do banheiro e muito choro e miado toda vez que queria sair. O máximo que ia era em um apartamento destruído em frente ao nosso.
A terceira casa, em Rio Negro, foi para não ter tempo ruim. Três quartos, sala gigante, cozinha equipada, em uma chácara na região montanhosa nos arredores de Medellín. Bóris ia, saia, andava, sumia e nunca nos molestava. Enfim a paz e o conforto fora de uma cidade grande. Mas a paz era até demais. Pelo menos 30 minutos de ônibus até a cidade. Ônibus esse que parava de passar às 8 da noite. Mais tarde que isso, eram uns 25 reais de taxi.
Tudo o que sempre precisamos é um lugar privado pra dormir, com internet para que possamos trabalhar, cozinha para que não precisemos torrar a grana toda comendo fora, e espaço para o Bóris. E que seja mais barato do que pagávamos no Brasil. Costumo dizer que o que agrada o Bóris em uma casa, me agrada também. Espaço e tranquilidade. Nada de ficar preso dentro de um apartamento. Isso eu tinha em São Paulo e, se meu bom jesus me ajudar, chega dessa vida.
Em Salento tínhamos tudo isso. Mais ou menos. O quarto era nosso, lá pegava internet. O banheiro e a cozinha do lado de fora, compartilhado. Mas em um hostal que vivia praticamente vazio. Bóris ia e vinha tranquilo (depois da história do buraco). Nem sei direito onde se metia para cagar.
Aqui em nossa primeira (e provavelmente única) casa no Equador, o hostal não vive vazio. Está cheio. A cozinha, compartilhada, peca bastante por sua higiene. O espaço das redes, grande, tem sempre o odor constante de merda da cachorra que vive aqui e escolheu o meio do caminho como seu banheiro favorito. Galera demora para limpar.
E assim vivemos. Os mesmos que sujam, nos acompanham na cerveja. Se não temos uma cozinha para a gente, temos um vizinho brasileiro músico que, ensaiando, cuida da trilha sonora de nossas tardes de trabalho. Hoje estávamos combinando com uns argentinos de fazer pizza no forno a lenha que tem aqui. Outro dia, esquecemos na cozinha uma frigideirinha que compramos, e quebraram o cabo para colocarem no forno. O Bóris entra e sai pulando a janela.
Antes buscar uma casa era estressante, hoje já fazemos com mais facilidade. Hay que se adaptar. Viver bem é mais uma questão de aprendizado do que de condição. A comodidade vem com bom humor e criatividade (fazemos nosso melhor para conseguir). Seja no Equador, Colômbia, ou em nossas futuras casas, que devem ser no Perú, ou no Acre, ou no Amazonas. Ou onde a vida levar a gente. Desde que tenha internet. E uma terra fofa pro Bóris cagar.
