Um dia o Bóris sumiu. Tínhamos chegado no dia anterior a Salento, cidade da Zona Cafeteira da Colômbia, e nos instalado no hostal Colibrie. Era uma casona, com vários quartos, uma cozinha, e um pátio aberto com uma mesa de ping-pong velha. Ficava na maior parte do tempo sem hospedes. A casa era nossa. O problema é que, do fundo, dava pra outra casa, e outra casa, e uma escola, uma estrada. E por aí o Bóris foi.
Eu tinha feito de tudo pra tapar qualquer possível passagem. De um lado, a grade dava para um quintal com cachorro. O Bóris não se metia lá. Ia por um buraco que caia direto no quintal de um casal vizinho. E não sabia voltar. E nos tocava ir lá buscar todas as vezes. Os vizinhos já queriam adotar o gato.
Toda mudança leva um tempo de adaptação. Preocupado com a felicidade e bem-estar do Bóris, fiz de tudo pra fechar o maldito buraco que o arrombado do gato sempre arrumava um jeito de se enfiar. Eu enfiando pedaços de madeiras, bambu, pedras, tijolo na porra do buraco, e o gato tentando passar. Caralho de gato. Dei um tapa nele e voltou pra casa.
Finalmente fechei o buraco. Com a felicidade dos vitoriosos. Pensando que enfim consegui ajeitar a casa nova de maneira confortável para podermos viver felizes e contentes pelas próximas semanas. O gato subiu no telhado, passou por cima de mim (literalmente), e foi embora pra outra casa, e outra casa... Seu féla.
Informei Carol do ocorrido e fomos atrás dele. Chamamos. Assoviamos o assovio que o Bóris conhece e nada.
Mas também... o gato tava estressado. Tinham sido boas horas de ônibus desde Medellín, por Pereira e depois Salento. Trancado em sua casinha. Depois no quarto de um hostel. Depois no quarto de outro hostel. Sem sua terra fofa para a hora do aperto. Gato colombiano tagangueiro não nasceu para ficar trancado em casa.
Rodamos o bairro. Fomos na casa da vizinha de sempre e nada. Perguntamos nas demais casas e nada. Nos esgoelamos por cada terreno baldio e nada. Por ali não dava pra ir, tinha cachorro. Por outro lado, alguém teria visto. Mas vai saber por onde o gato se meteu. Já era. Não tenho mais gato.
Já estávamos pra lá de estressados. Melhor até ficar longe.
Consternado, voltei para o hostel. Não tinha mais onde procurar. Carol tinha ido imprimir uns anúncios com a foto do Boleto para espalhar pela cidade.
Decidi voltar para o mesmo buraco que eu tanto me esforcei para tapar. Assoviei o mesmo assovio que o Bóris conhece. Respondeu com um miado sonolento. Aos poucos vejo uma lona preta se mexendo e o gato saindo de um cochilo, tranquilo, em minha direção.
Fechei o gato no quarto e fui chamar a Carol. O gato ficou tranquilo por ali, com a gente, da forma que sempre fica quando está com sono. Mas logo começou a miar querendo sair. E saiu. Desde então a porta ficou sempre meio aberta, presa por um sapato. E o gato livre. E sempre que pensamos que não volta, ele volta.
Hoje moramos em outra casa. Um outro hostal em Montañita, litoral do equador. Colocamos um balde perto da janela para que o Borão entre e saia quando queira. Aqui ele tem amigos. Vários gatos o entretêm e o ensinam a conviver com seus iguais. Mas sempre volta. Cheio de pulga, mas volta.
Amor só dura em liberdade. Já diria Raulzito.
(ps.: já mandamos arrancar as bola do gato pra que esse safado não se perca atrás de qualquer uma por aí)

Demais essa história. Na próxima vida, quero ser um gato.
ResponderExcluirDaniel Ribeiro